«Rush», uma rivalidade a todo o gás

Poster_Rush

Pensando nas carreiras desportivas de Ronaldo e Messi, de Nadal e Federer ou de Muhammed Ali e Joe Frazier, imagina-se que algum destes atletas pudesse ter chegado a um patamar tão elevado de performance sem a acesa competição com um directo rival? É precisamente nessa lógica que se enquadram os percursos de Niki Lauda e James Hunt, protagonistas maiores da Fórmula 1 na década de 1970 agora retratados no grande ecrã pela mão de Ron Howard, a partir de um brilhante argumento de Peter Morgan (A Rainha, Frost/Nixon, O Último Rei da Escócia).

Rush cruza essencialmente dois registos cinematográficos para contar esta história empolgante. Por um lado, sendo um filme em torno do desporto motorizado, não dispensa o ponto de vista dos pilotos na pista e a vertigem da velocidade junto ao asfalto, filmados a um ritmo frenético. As sequências de corrida apresentam uma incrível fotografia, “suja” quanto baste para se assemelhar à qualidade de imagem típica da década de 1970. Destacam-se os primeiros grandes prémios de 1975, ano em que Lauda se sagrou campeão do mundo pela primeira vez, graficamente muito bem trabalhados.

Ao mesmo tempo, Ron Howard consegue um bom equilíbrio entre a emoção da pista e a densidade dramática fora dela, desconstruindo as duas personagens principais do filme e as suas características antagónicas. Num pólo está Niki Lauda (Daniel Brühl), a encarnação da racionalidade e do perfeccionismo, quase imune às emoções, com uma determinação tão extrema que em plena lua de mel reconhece analiticamente que “a felicidade é o inimigo, porque quando estás feliz tens algo a perder.” No pólo oposto encontramos o descontrolo emocional, o estilo boémio e a fanfarronice de James Hunt (Chris Hemsworth).

O fascinante nesta rivalidade que ambos alimentam é que embora não pudessem ser mais diferentes, a sua rivalidade alimenta-lhes a ambição e estimula-os a explorar os seus limites. Em última análise, eles precisam um do outro. Outro aspecto peculiar em Rush é a ambiguidade desta rivalidade, pois nenhuma das personagens é retratada (nem poderia ser) como herói ou rival. Nunca se sobrepõe a competição à integridade de carácter e o desenrolar da narrativa apenas vem reforça essa nobreza de sentimentos, o mútuo respeito e admiração que sentiam, ainda que incapazes de o reconhecer.

Trata-se de homens que olham a morte de frente e aceitam a finitude a cada corrida. Hunt diz a certa altura que os carros que conduzem “são caixões assentes em combustível de alta octanagem”. Pese a falta de disponibilidade e propensão para casar,  o filme aproveita bem a chegada do momento em que ambos o decidem fazer para vincar os extremos em que os protagonistas se encontram: Lauda dá o nó pragmaticamente com alguém que o compreende e o apoia, ao passo que Hunt casa por impulso alguém fundamentalmente pela sua aparência física.

É preciso esperar quase metade do filme para chegar ao Grande Prémio da Alemanha em 1976, no circuito de Nürburgring, também conhecido como “o cemitério”. O grave acidente que Niki Lauda protagoniza nesta corrida é o ponto de viragem fulcral na trama, o momento em que, após algumas “voltas de reconhecimento”, o filme arranca a toda a velocidade e só pára na recta final. Não é de todo segredo o que sucedeu a Lauda nessa corrida, mas as arrepiantes sequências da sua recuperação no hospital revelam uma faceta mais íntima do austríaco, que parece sofrer mais a ver as corridas à distância do que com os tratamentos em si. Alegoricamente, Rush mostra que a verdadeira pele do austríaco é o seu capacete e que, apesar das incontornáveis consequências do desastre, é desta pele, e do que simboliza, que mais sente a falta.

O casting das personagens principais é quase perfeito, não apenas pelas semelhanças físicas mas pela capacidade de interpretação dos traços marcantes de cada um dos pilotos. Contudo, é Daniel Brühl quem mais se evidencia, com uma interpretação que certamente vai acelerar em direcção a múltiplos prémios, sendo que o mérito de Chris Hemsworth se dispersa um pouco por detrás dos maneirismos de playboy. As restantes personagens basicamente orbitam em torno Hunt e Lauda, com pouca profundidade e essencialmente unidimensionais.

Na vertente sonora, o frenesim das boxes e o ruído ensurdecedor dos motores são realisticamente captados e misturam-se de forma habilidosa com a banda sonora composta por Hans Zimmer, que varia entre o rock e os ambientes mais profundos, embora sempre tensos.

A grandeza das personagens (baseadas o mais possível nas figuras reais) é suficiente para arrebatar mesmo o espectador que não tenha qualquer admiração pelo automobilismo, se bem que, tendo-a, desfrutará ainda mais da experiência. O final, deveras filosófico e inspirador, remata com a essência de cada uma destas lendas da Fórmula 1. Já a inclusão de fragmentos de imagens reais dos pilotos funciona como homenagem e pisca o olho ao documentário. Aliás, seria impossível analisar Rush sem mencionar Senna, o brilhante documentário de 2010 acerca do falecido piloto brasileiro. Não só Senna parece ter servido de incentivo e inspiração para a realização de Rush como ambos os filmes partilham, sem margem para dúvidas, a pole position do melhor filme de sempre sobre desportos motorizados.

Classificação (0-10): 9

Rush – Duelo de Rivais | 2013 | 123 mins | Realização: Ron Howard | Argumento: Peter Morgan | Elenco principal: Daniel Brühl, Chris Hemsworth e Olivia Wilde

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