LEFFEST ’14: «Saint Laurent», um talento imortal

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Saint Laurent, de Bertrand Bonello, é um filme dedicado a essa personalidade incontornável no mundo da moda que alterou muito mais do que a maneira como a mulher se vestia: ele inventou a mulher moderna, prática e elegante, pronta a triunfar tanto na passadeira como no escritório ou em casa. Um visionário que projectou no mundo uma imagem bastante diferente daquilo que era entre quatro paredes. No mesmo ano a vida de Yves é revisitada por dois realizadores Jalil Lespert e agora Bonello. Duas abordagens bastante diferentes, o de Lespert mais glamoroso e clássico, o de Bonello mais profundo e humano.  A visão de Bonello é bastante crua e vai descascando as fragilidades deste gigante até se tornar uma criança insegura e mimada, um génio preso num corpo de um homem tímido que deixou a sua vida ir ao sabor do amor. Retrata o estilista nos seus anos áureos de 1967 a 1976, uma vida dedicada ao talento que transformou o seu nome em marca e a paixão de desenhar numa obrigatoriedade de centenas de colecções nas quais inovar era a palavra chave. Gaspard Ulliel tem uma prestação notável, muito credível ao interpretar a vida interior da personagem, que o isola mesmo sempre rodeado de pessoas, quer seja nas festas, na sua casa com os seus amigos ou em orgias exuberantes. O lado negro da pressão constante que reinava a sua vida é expresso no ar cansado e nos desabafos em que diz que se sente velho aos 33 anos e que criou um monstro com o qual tem de viver. Os constantes momentos de decadência surgem como um escape de libertação e de comunhão com os seus amigos. Jérémie Renier interpreta Pierre Bergé, o amor eterno de Laurent, impulsionador e por vezes carrasco da ambição que levou este último a ser a casa que ainda hoje é. A banda sonora em discurso diegético leva-nos para dentro das vivências de Saint Laurent, tanto dos êxitos dos anos 60-70 que vibram nos clubes nocturnos, como dos momentos introspectivos ao som de Callas. A direcção artística é também um dos pontos fortes, deliciando o espectador com as roupas, o decor dos cenários até à apoteose do seu desfile, complementado com uma composição visual dividida em vários fragmentos que mostram a passadeira e os bastidores, espelhando a eterna dualidade entre a figura pública e o ser humano real.
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O senão de Saint Laurent ter estreado posteriormente é que inevitavelmente será comparado ao anterior e muitas daquelas imagens já foram vistas (a casa que lembra Marrakech, os clubes noturnos) e muitas personagens já conhecemos. Este filme peca por demasiado longo e o último terço parece arrastar demasiado uma história que já estava contada. Em particular os constantes avanços e recuos na linha temporal da narrativa aparecem de rompante e atrapalham-se entre si misturando a criança, o adulto e o idoso numa cadência disfuncional, que ainda que possa sugerir uma aura de demência, não premeia a fluidez do ritmo. Esse ambiente louco e misterioso é corroborado com a introdução de elementos simbólicos como as cobras, os sucessivos alucínios com os cães e a gravação das duas modelos. A parafernália de elementos condensados torna a montagem inócua e distancia o espectador da narrativa.

 Classificação (0-10): 7

 

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