«O Primeiro Homem na Lua»: a perfeita simbiose entre humanismo, arte e ciência

A terceira longa metragem do realizador Damien Chazelle (depois de Whiplash e La La Land), O Primeiro Homem na Lua, é a derradeira homenagem à coragem e ao humanismo dos que contribuíram para a expansão dos limites do conhecimento durante a corrida espacial. Pegando numa história amplamente conhecida, Chazelle decide narrar parte da vida do astronauta mais famoso do mundo, Neil Armstrong, através da lente da intimidade.
É o retrato de um homem e da sua família. Ryan Gosling, que interpreta Armstrong, desempenha um dos melhores papéis da sua carreira, transmitindo tensão e a personalidade fechada do astronauta. Claire Foy é igualmente brilhante no papel de Janet Armstrong, a esposa, uma personagem secundária por inerência à história mas não menos acutilante a cada vez que aparece no ecrã. E que bom é ver representadas mulheres assim, reais, fortes, emocionais e companheiras de luta de figuras que, por via de um patriarcado dominante, são tendencialmente masculinas. As personagens são, pela primeira vez no trabalho de Chazelle, profundas e complexas. O trabalho do argumentista, Josh Singer, é meticuloso, os diálogos são precisamente aquilo que têm de ser, nem uma palavra a mais nem a menos, dando espaço ao trabalho de ator para exprimir as emoções através do olhar, do silêncio… e isso para os lados de Hollywood é algo raro.
 
O trabalho de humanização é transversal às suas várias componentes: personagens, realização e edição. O trabalho de câmara é orgânico, acompanhamos as personagens quando elas andam, os movimentos vertiginosos nos exercícios de treino a que os astronautas são sujeitos e nas descolagens, com planos extremamente fechados que transmitem uma empatia e proximidade com a personagem muito diferente do que se viu até agora em filmes de género científico que acompanham as missões da NASA na “corrida espacial Americana” (como é o caso de Apollo 13, In the shadow of the moon ou The Right Stuff). Chazelle é inovador na forma como realiza O Primeiro Homem na Lua e traz o seu cunho artístico à nova vaga do cinema que retrata missões espaciais, já bastante bem representado por nomes como Christopher Nolan (Interstellar) ou Alfonso Cuarón (Gravidade). O ritmo do filme é também ele livre dos constrangimentos do corte rápido e sincopado, deixando respirar a tensão que o desafio de entrar numa nave espacial montada numa bomba acarreta.
Desta vez a música não ocupa um papel tão central como aconteceu em anteriores filmes do realizador, mas a banda sonora continua a cargo de Justin Hurwitz, que imprime o mesmo bom gosto e compõe em equilíbrio perfeito na composição das cenas, nunca sendo intrusiva (como o trailer anunciava) e por vezes até deixando o espectador suspenso pela sua ausência.
Partindo de uma premissa banal, O Primeiro Homem na Lua consegue através de todos os seus componentes transformar cada minuto num momento especial, captando a excelência do que é fazer arte.
Classificação (0-10): 9
O Primeiro Homem na Lua | 2018 | 141 mins | Realização: Damien Chazelle | Argumento: Josh Singer | Elenco principal: Ryan Gosling, Claire Foy, Jason Clarke

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